Quinta-feira, Novembro 19, 2009

A de Sempre

Reflexão esperta de Carlos Drummond de Andrade sobre a variedade de cervejas no mercado. O texto A de Sempre está no livro De notícias & não notíciasfaz-se a crônica, de 1974. Imagine se ele vivesse na época da confusão de marcas da Ambev.

(Eu demoro para postar, mas nunca esqueço nosso espaço aqui. Nem quando estou no antibiótico. Dias mais frequentes virão)


— Até beber cerveja ficou difícil — queixa-se.

— O preço?

— Não. A variedade. O embaras du choix.

— Mas se você já estava acostumado com uma...

— E as novas que aparecem? Em cada Estado surge uma fábrica, se não surgem duas. Cada qual oferecendo diversas qualidades. Você senta no bar de sua eleição, um velho bar onde até as cadeiras conhecem o seu corpo, a sua maneira de sentar e de beber. Pede uma cervejinha, simplesmente. Não precisa dizer o nome. Aquela que há anos o garçom lhe traz sem necessidade de perguntar, pois há anos você optou por uma das duas marcas tradicionais, e daí não sai. Bem, você pede a cervejinha inominada, e o garçom não se mexe. Fica olhando pra sua cara, à espera de definição. Você olha para cara dele, como quem diz: Quê que há, rapaz? Então ele emite um som: Qual? Você pensa que não ouviu direito, franze a testa, num esforço de captação: qual o quê? Qual a marca, doutor? Temos essa, aquela, aquela outra, mais outra, e outra, e outras mais. Desfia o rosário, e você de boca aberta: Como? Ele está pensando que eu vou beber elas todas? Acha que sou principiante em busca de aventura? Quer me gozar? Nada disso. O garçom explica, meio encabulado, que a casa dispõe de 12 marcas de cerveja nacional, fora as estrangeiras, sofisticadas, e ele tem ordem de cantar os nomes pra freguesia. Até pra mim, Leovigil? pergunto. Bem, o patrão disse que eu tenho de oferecer as marcas pra todo mundo, as novas cervejas têm de ser promovidas. Não mandou abrir exceção pra ninguém, eu é que, em atenção ao doutor, fiquei calado, esperando a dica... Não quis forçar a barra, desculpe.

— E aí?

— Aí eu disse que não havia o que desculpar, ordens são ordens e eu não sou de infringir regulamentos. Os regulamentos é que infringem a minha paz, freqüentemente. Mas para não dar o braço a torcer, nem me declarar vencido pela competição das cervejas, concluí: Leovigil, traga a de sempre.

— Não quis dizer o nome?

— Não. Minha marca de cerveja — "minha garrafa", digamos assim, pois a individualidade começa pela garrafa — passou a chamar-se "a de sempre". Não gosto de mudar as estruturas sem justa causa, nem me interessa dançar de provador de cerveja, entende?

— Mas que custa experimentar, homem de Deus?

— Só por experimentar, acho frívolo. Os moços, sim, não encontraram ainda sua definição, em matéria de cerveja e de entendimento do mundo. Saltam de uma para outra fruição, tomam pileques de ideologias coloridas, do vermelho ao negro, passando pelo róseo, pelo alaranjado e pelo furta-cor. Mas depois de certa idade, e de certa experiência de bebedor, você já sabe o que quer, ou antes, o que não quer. Principalmente o que não quer. E é isso que os outros querem que você queira. Tá compreendendo?

— Mais ou menos.

— Na verdade, não há muitas espécies de cerveja, no mundo das idéias. Mas os rótulos perturbam. Uns aparecem com mulher nua, insinuando que o gosto é mais capitoso. Bem, até agora não vi rótulo de cerveja mostrando mulher com tudo de fora, mas deve haver. Mulher se oferecendo está em tudo que é produto industrial, por que não estaria nos sistemas de organização social, como bonificação?

— Você está divagando.

— Estou. Divagar é uma forma de transformar pensamentos em nuvem ou em fumaça de cigarro, fazendo com que eles circulem por aí.

— Ou se percam.

— E se percam. Exatamente. 0 importante não é beber cerveja, é ter a ilusão de que nossa cerveja é a única que presta.

Sujeito mais conservador! Ou sábio, quem sabe?

Sexta-feira, Setembro 25, 2009

Quem tem medo da verdade?

Este era um nome de um programa que fez muito sucesso na TV Record no final dos anos 60.

A dinâmica era a seguinte: personalidades eram acusadas de um determinado "crime" e, após a defesa de seus "advogados", um corpo de jurados (também formado por famosos) dava o veredito de culpado ou inocente.

Coloco aqui o "julgamento" de Grande Otelo por causa do seu "delito". O ator estava na berlinda por "se dedicar a vida boêmia" e por ser "um profissional irresponsável, tendo deixado de cumprir compromissos em consequencia da bebedeira e da ressaca".

Tem de ver até o fim para ouvir a sensacional e sincera resposta de Adoniran Barbosa sobre a papagaiada.

Sexta-feira, Setembro 18, 2009

Os bambambãs da Vejinha

A revista Veja São Paulo fez sua tradicional festança para premiar os melhores bares e restaurantes da cidade. A apresentação foi da atriz Claudia Raia e um monte de gente famosa apareceu para entregar as placas comemorativas.

Clique aqui para ver as resenhas e conferir o trabalho de Fabio Wright, o pequeno polegar da noite paulistana.

Ao que nos interessa aqui, segue a lista dos vencedores nas 11 categorias de bares, eleitos por 10 jurados - entre eles o autor deste blog:

Boteco: São Cristovão (é um boteco da geração século 21, com um chope no ponto e uma alheira sensacional. Quem gosta de futebol se diverte com as centenas de quadrinhos pelas paredes)

Carta de cervejas: Melograno (um post logo abaixo revela a minha opinião sobre o bar, aberto recentemente. Sua inauguração vai forçar o Frangó, com quem concorre cabeça a cabeça, a trazer ainda mais novidades)

Chope: Original (não é por acaso que venceu uma das categorias mais nobres pela oitava vez. Cuidado extremo com a bebida. De quebra é um dos 3 melhores bares da cidade)

Cozinha: Adega Santiago (água na boca só de passar na frente. É dos mesmos donos do Espírito Santo, que tem a minha preferência)

Feijoada de boteco: Veloso (Nem muito nem pouco. A caipirinha com três variedades de limão supera qualquer eventual deslize)

Happy hour: São Pedro São Paulo (Bar correto, no lugar errado. Apareça lá só depois das 21h)

Música ao vivo: Ó do Borogodó (Sambinha de primeira, gostoso; merecia estrutura melhor: quanto menos você beber, menos você vai se irritar para atravessar o apertado salão para pegar uma cerveja ou ir ao banheiro)

Para ir a dois: Baretto (Elegância e sofisticação. Não tem concorrentes na cidade em sua categoria)

Para paquerar: Sonique (Não conheço. Preciso ir até lá um dia destes para comprovar a fama - sim, só não posso esquecer de colocar minha opinião aqui neste nosso espaço)

Bar revelação: Subastor (Sensacional, muito astral. Se quiser sossego tem de chegar bem cedo mesmo ou, como orientou um amigo, voltar às 3h da matina para tomar a saideira sem atropelos. A trilha sonora confere um tchan a mais ao salão)

Barman do ano: Pereira - Astor e Subastor (Voz mansa, atencioso ao explicar os drinques para os clientes. Conta com auxiliares competentes para preparar os drinques sempre no ponto certo)

Sexta-feira, Agosto 28, 2009

Frase para refletir no fim de semana

"Bendito sejam os chatos, pela imensa alegria que nos dão, no exato momento em que se vão",
Dito popular

Quarta-feira, Agosto 26, 2009

O espírito de um wine bar

O Willi's é um wine bar parisiense aberto em 1980 e que tem uma filial nos Estados Unidos. O que fez o lugar ficar mais conhecido é sua estratégia de pedir, anualmente, para um artista plástico contemporâneo criar um pôster que retrate o espírito do vinho e do bar.

O primeiro deles foi produzido em 1983 - veja abaixo algumas formas de representar o wine bar francês. Todos podem ser adquiridos na loja virtual do bar. Custa caro. Mesmo se não for comprar, clique aqui para conhecer a coleção completa.










Terça-feira, Agosto 25, 2009

O concorrente do Frangó



Aberto no final do ano passado, o bar Melograno (Rua Aspicuelta, 436, Vila Madalena) tornou-se em pouco tempo um ponto de referência em São Paulo para quem gosta de cerveja. É o primeiro verdadeiro concorrente do Frangó (Largo da Matriz Nossa Senhora do Ó, 168, Freguesia do Ó), cada um na sua, desde sua inauguração, em 1987.

Oferece mais de 130 rótulos, de 13 países. Vez ou outra, realiza degustações da bebida e promove festivais temáticos - até neste domingo (30), por exemplo, as garrafas escocesas estão com preços mais baixos.

Quem está por trás do barzinho é o Eduardo Passarelli, que conhece tudo sobre brejas e é autor de um bom blog sobre o tema, o Edu Recomenda.

Uma de suas sacada foi promover uma harmonização das cervejas com sanduíches, crostines, paninis e surpreendentes cebolas assadas entremeadas com recheios, tudo preparado no forno a lenha.

A outra é investir no processo de servir a cerveja, cada uma em um copo apropriado e sempre trocando os copos a cada garrafa. O cerimonial, por assim dizer, é bem-vindo, é bem legal, mas não pode ter espaços para exageros - o garçom, aliás, se atrapalhou pelo menos uma vez quando estive lá.

Afinal, apesar do preço salgado de algumas marcas e da tendência de trazer rituais do vinho para as geladas, cerveja precisa ser tomada como cerveja, num clima de simplicidade, sem frescurite.

Alertado disso, escolha sentar-se numa das mesa do salão dos fundos, com vista para o forno a lenha e com um teto retrátil para garantir refresco nas noites quentes.

Nota para a seção quizz dos bares: Melograno foi um bar de música ao vivo, que também ficava na Fradique Coutinho, também na Vila Madalena, liderado pelo saxofonista argentino Hector Costita. Achei um vídeo no Youtube sobre o pico. Clique aqui para ver.

Segunda-feira, Agosto 24, 2009

Os caras são profissionais...

Para marcar a volta das férias no RN, dois vídeos com o Vinícius de Moraes e com o Tom Jobim bem para lá de Bágda.

O primeiro traz o caso da mulher revoltada que quebrou a garrafa de uísque. Em seguida, veja o Vinícius falando da primeira mulher.



Quarta-feira, Julho 01, 2009

Gosto não se discute

O Guia da Folha publicou na sexta passada (sim, estou bem atrasado) uma edição especial com os melhores bares e restaurantes de São Paulo.

Nosso blog aqui participou da votação do júri de bares. Os destaques da revista foram para o Astor (excelente, mas muito caro), vencedor em melhor bar e em melhor boteco chique; o Filial (ótima para o final de noite, quando o movimento diminui e o atendimento melhora), segundo lugar em melhor bar e melhor boteco chique, terceiro em melhor chope e ganhador na categoria melhor fim de noite, e o Veloso (pena que seja tão difícil conseguir uma mesa de quinta a sábado à noite), campeão em melhor caipirinha e na melhor porção, com a coxinha. Clique aqui para ver a relação completa.

A publicação também trouxe o resultado de uma inédita pesquisa feita pelo Datafolha sobre o assunto, em que foram ouvidas 1.389 pessoas. Só o fator gosto não se discute para explicar o fato de o Bar Brahma (só vale se for para levar um turista) ter vencido como melhor bar, boteco chique, fim de noite, happy hour, chope e música ao vivo - não é preciso nem oferecer clique para ir para a página.

Das categorias principais, as indicações do blog só combinaram com a caipirinha do Souza, lá do Veloso. Abaixo, abro para a posteridade todos os meus votos, um por um.

Melhor bar de SP - Dry
Fim de noite/madrugada - Genial
Boteco chique - Original
Caipirinha - Veloso
Carta de cerveja - Frangó
Chope - Bar Leo
Melhor Drinque - Caju Amigo, do Pandoro
Em hotel - Baretto
GLS - Bar da Dida
Happy hour - Tiro Liro
Música ao vivo - Teta
Para paquerar - Café Di Lounge
Pé-sujo - Bar do Luiz Nozoie
Porção - Bolacha de provolone, Empanadas

Sexta-feira, Junho 26, 2009

Frase para refletir no final de semana

"Você está bêbado quando começa a sentir solidariedade e não consegue pronunciar essa palavra",
Millôr Fernandes, em sua recém-lançada página no Twitter

Quarta-feira, Junho 10, 2009

Para ficar de orelha em pé

O progresso muda a cidade. O entorno da esquina da Rua Aurora com a Rua dos Andrades, onde fica a clássica choperia, já foi um lugar residencial, ponto de garotas de programa e hoje vive especialmente da movimentação do comércio da Rua Santa Ifigênia. O Bar Leo passou quase incólume por tudo isso. Será que projeto da Prefeitura de transformar a região da Estação da Luz em pólo empresarial vai provocar a mudança do avô dos bares paulistanos? Sinceramente espero que não. De qualquer forma, dê uma olhada no alerta urbanístico da coluna da Monica Bergamo de hoje.

"Frequentadores do tradicional Bar Léo, de 69 anos, famoso por um dos melhores chopes da cidade, estão preocupados com o que acontecerá com o local que está na área da Nova Luz, que será revitalizada nos próximos anos. O gerente, Waldemar Pinto, diz que a mudança do boteco é inevitável. "Vai ficar tudo caro por ali. Melhor sair logo." Ele diz temer que o Léo perca o "glamour" em outro lugar."